Filhotes de Bem-te-vi    Pitangus sulphuratus  

 

Caracterização do Meio Biótico Fauna

 

As atividades da Coordenadoria da Caracterização do Meio Biótico – Flora  iniciaram com a seleção de 4 estagiários sendo uma aluna da graduação do curso de Engenharia Florestal da Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP de Botucatu, Mariana Simoni de Castro e 3 alunos da graduação do curso de Ciências Biológicas da UNESP, Bruno Issamu Kanno, Rodrigo Santiago de Oliveira Carvalho e Vinícius Nunes Alves.

A equipe coordenada pelo Biólogo Helton Carlos Delicio vai realizar ao longo de 2011, a caracterização da mastofauna e da avifauna de 5 fragmentos florestais da microbacia do Córrego da Cascata, através de esforços amostrais na Mata do Éden, Mata da Cascata, Mata do Recanto Azul, Mata da Igreja e Mata Terras Altas.

     Foto aérea das áreas escolhidas para a caracterização da fauna nos fragmentos florestais  indicados em amarelo.

 

 Caracterização da Mastofauna

No mês de abril, foi realizado a identificação e reconhecimento dos fragmentos, abertura de trilhas, marcação dos pontos de coleta, instalação de parcelas de areia, coleta e identificação de pegadas e a manutenção das parcelas para futuras coletas. A equipe percorreu a rodovia Domingos Sartor a fim de encontrar possíveis vestígios de animais atropelados ao longo da rodovia, ocorrência comum, uma vez que a rodovia está situada paralelamente ao Córrego da Cascata e as áreas de estudo estão localizadas em ambos os lados da rodovia, ocorrendo assim passagem de animais de um fragmento para outro.

Identificação e reconhecimento dos fragmentos, abertura de trilhas, marcação dos pontos de coleta

Transporte de areia para o preenchimento das parcelas.

Preenchimento da parcela com areia

Instalação de parcelas de areia

 

 

  Parcela de areia finalizada. As pegadas deixadas pela mastofauna nas parcelas são colhidas               em moldes de gesso e identificadas através de guia de identificação de mamíferos silvestres .

 

Caracterização da Avifauna

A metodologia empregada para avifauna foi a observação direta dos espécimes existentes no ambiente, realizada em pontos fixos, nos quais os observadores permanecem no local por 30 minutos registrando a vocalização das aves e identificando as espécies.   

Foi registrada a ocorrência de 36 espécies de aves durante a amostragem e 19 espécies em encontros casuais, totalizando 55 espécies. Por ser uma época do ano em que começa a diminuição da ocorrência de animais, este número é extremamente expressivo em termos qualitativos.

Seriema - Cariama cristata

 

Nos meses de maio, junho e julho a equipe percorreu os 5 fragmentos de Mata Atlântica, sendo que quatro fragmentos estão localizados no distrito de Rubião Júnior (mata do Morro de Santo Antônio, mata do Éden, mata do residencial Terras Altas e do Residencial Parque das Cascatas) e um fragmento na área urbana de Botucatu (mata do bairro Recanto Azul.

Por ser a maior área de fragmento de mata dentre as cinco área de estudo, a mata do Morro de Santo Antônio vem mostrando uma grande diversidade de espécimes. Algumas características da mata têm contribuído para que esta diversidade seja evidente, tal como a presença de pequenas cachoeiras ao longo do fragmento. É uma área bastante difícil de locomover, principalmente pelo seu tamanho e relevo acidentado.

Para o levantamento de mastofauna, foram instaladas 12 parcelas de areia, divididas em 4 conjuntos, cada qual composto por 3 parcelas distribuídas em forma de triangulo: um conjunto próximo à pastagem, outro próximo à cachoeira e dois no interior da mata. 

Mata do Morro de Santo Antônio, onde está situada a igreja de Santo Antônio, mostrando a trilha percorrida pela equipe (amarelo) e as parcelas instaladas no interior da mata (quadrados).

 

Esta área vem sofrendo com a visita de pessoas que acabam por destruir as parcelas e os sacos de areia que são deixados pela equipe no inicio da trilha e deixam grande quantidade de lixo na entrada da mata. Já foram refeitas 2 parcelas, mas as mesmas foram destruídas novamente. Uma placa informativa foi instalada ao longo da trilha informando que naquele local está sendo realizada uma pesquisa com mamíferos.

A mata do Éden é estreita, pequena e localizada bem próxima à Rodovia Domingos Sartori. Outra característica importante deste fragmento é a grande quantidade de nascentes na borda da mata. O levantamento é realizado através do registro de pegadas de mamíferos silvestres nas quatro  parcelas de areia instaladas nesse fragmento identificadas no mapa com um quadrado

O terceiro fragmento de mata estacional semidecidual  margeia um represamento do Córrego da Cascata localizado no  Residencial Parque das Cascatas.  Antes do represamento existe uma cachoeira com uma queda de aproximadamente 5 metros. O relevo deste fragmento é bastante irregular o que dificulta a instalação das parcelas. Mesmo sendo uma área maior que a mata do Éden, apenas 5 parcelas de areia foram instaladas

 

Esta mata também se encontra no interior de condomínio, o Residencial Terras Altas e é formada por um pequeno fragmento de floresta estacional semidecidual que possui uma das nascentes do Córrego da Cascata que não está catalogada na carta base do projeto.  Por ser um fragmento muito pequeno e o condomínio ser totalmente cercado por muro, fator que desfavorece o livre transito dos animais, foram instaladas apenas 2 parcelas de areia no interior da mata.

 

A mata do Recanto Azul é a segunda maior em tamanho e também é formada por uma mata estacional semidecidual. A proximidade deste fragmento com a Rodovia Marechal Rondon, dificulta a observação dos animais no interior da mata devido ao barulho contínuo de veículos. A instalação das parcelas foi realizada no mês de julho, período em que foi  detectada uma grande quantidade de lixo espalhado na entrada da mata.

Para identificar os animais são medidos os seguintes parâmetros das pegadas: Comprimento total (CT) e Largura total (LT). Nos carnívoros, que envolvem principalmente os felinos e caninos foram também registrados o Comprimento e a Largura da almofada (CA e LA). Para a identificação das pegadas nas parcelas utilizamos vários guias: Rastros de animais silvestres brasileiros: um guia de campo, Becker, M & Dalponte, J.C. 1991; Guia de campo dos felinos do Brasil, Oliveira, G.T. & Cassaro, K., 2005, site :www.procarnivoros.org.br.

Para o levantamento de aves foi utilizada a mesma trilha aberta para a mastofauna. O levantamento é realizado em pontos fixos de escuta na qual a equipe permanece 15 minutos nos pontos pré determinados e obrigatoriamente distantes 150 metros um do outro.

Outra técnica de levantamento é por transectos, no qual a equipe se desloca ao longo de uma trilha pré estabelecida e registra as vocalizações. Neste tipo de levantamento, a qualificação da equipe é extremamente importante para identificar as aves através da vocalização, utilizando uma gravação do canto ou não; visualização direta com o auxilio ou não de binóculos e quando possível, o registro fotográfico das espécies.    

Esta metodologia de levantamento por transectos tem o objetivo de se conhecer a riqueza da comunidade de aves em determinado local. (Métodos de estudo em Biologia da Conservação Manejo da Vida Silvestre, Cullen, J.L, Rudran, R., Valladares-Padua, C.; Aves Brasileiras e plantas que as atraem, Frisch J.D., Frisch, C.D.; Aves do Campo, Hofling, E. Camargo, H.F.A.).

Para se registrar maior diversidade das espécies na bacia do Córrego da Cascata, os levantamentos serão realizados nas quatro estações do ano, levando em consideração que durante a temporada reprodutiva, as aves estão muito mais ativas, vocalizando com maior freqüência, tornando muito mais eficiente a identificação das espécies.

Caracterização da mastofauna

Até o mês de outubro de 2011 o levantamento de mastofauna realizado na bacia do Córrego da Cascata registrou nove espécies de mamíferos de pequeno e médio porte: Dasypus novemcinctus (tatu galinha), Didelphis sp. (gambá), Mazama sp (veado), Hydrochoerus hydrochaeris (capivara), Myrmecophaga tridactyla (Tamanduá bandeira), Guerlinguetus ingrami (esquilo), Tamandua tetradactyla (Tamanduá-mirim ou tamanduá-de-colete),  Sphigurus villosus (Ouriço) e um pequeno felídeo.

A metodologia utilizada para o levantamento foi o método indireto, através das pegadas dos mamíferos deixados sobre as parcelas de areia. Estas pegadas, quando em bom estado são medidas com o paquímetro e comparadas com o Guia de Rastros de Animais Silvestres Brasileiros (Guia de campo – Becker e Dalponte).

Os encontros ocasionais também são registrados.  Neste caso a equipe em incursão nos fragmentos visualiza o animal e este registro também é utilizado na estatística do levantamento. Como a maioria destes animais tem hábitos noturnos, a visualização torna-se mais difícil.

Neste trimestre a equipe realizou 22 incursões de 4 horas a campo num total de 88 horas de esforço amostral e registrou sete mamíferos na microbacia do Córrego da Cascata: o tatu galinha, gambá, veado, capivara, tamanduá bandeira, esquilo e um pequeno felídeo.

Em cada fragmento, as coletas foram realizadas em 3 dias consecutivos, sendo que no primeiro dia a equipe realizava a manutenção das parcelas através da movimentação da areia, deixando-as bem lisas, rega das parcelas com água e colocação das iscas.

Nos dias subsequentes a equipe retornava às parcelas e realizava a identificação e registro das pegadas deixadas pelos animais.

O número de espécies encontradas até o presente momento não é muito grande e vem se repetindo nos levantamentos e com certeza não representa a real diversidade da mastofauna existente no Córrego da Cascata.

Como exemplo, podemos citar a quantidade de gambás e Tatus existentes no morro de Santo Antônio. De acordo com os registros morfométricos das pegadas podemos distinguir oito indivíduos diferentes de gambás e sete de tatus.

Parcela 9. Morro de Santo Antônio. Registro morfométrico da pegada de gambá. Didelphis sp

Este cálculo não é preciso, pois os registros podem apresentar variações nos parâmetros analisados (CT = comprimento total e LT = largura total das patas), que podem interferir nas medições e conseqüentemente nos resultados, tais como profundidade das pegadas, velocidade que o animal passou pela parcela, umidade e consistência das parcelas.

Em relação às outras espécies esta quantificação é impossível de ser realizada devido à baixa frequência de pegadas.

 Myrmecophaga tridactyla. Tamanduá bandeira visualizado na borda da mata do Morro de Santo Antônio.

A perda e alteração dos habitats naturais, principalmente aqueles causados por supressão da vegetação ou a sua descaracterização, são as principais causas da diminuição ou mesmo extinção da fauna silvestre. Em paisagens muito fragmentadas, como as observadas na microbacia do Córrego da Cascata, a perda de espécies ou o declínio das populações locais é caracterizada pela presença de espécies generalistas em abundância, como por exemplo, o gambá (Didelphis sp).

Os principais aspectos e impactos ambientais que afetam a comunidade de mamíferos da microbacia relacionam-se à expansão urbana do município de Botucatu e mais especificamente ao desenvolvimento dos bairros do distrito de Rubião Júnior. O loteamento do bairro Jardim Tropical e a implantação de condomínios residenciais como o Parque das Cascatas, Terras Altas e Spazio Verde, fragmentaram muito a área de floresta ao longo do Córrego da Cascata.

As queimadas também afetam diretamente a qualidade dos habitats e causam a mortandade dos mamíferos silvestre. O uso do fogo para limpeza de áreas verdes é uma prática comum em Botucatu e é utilizada indiscriminadamente, tanto na área rural, quanto na área urbana do município. Há alguns anos atrás a mata do Morro de Santo Antônio sofreu com 3 grandes incêndios florestais. Neste ano, na época da seca, registramos incêndios florestais nos 4 setores da microbacia.

Além da expansão imobiliária, a Rodovia Domingos Sartori recentemente duplicada, contribui para distanciar a mata do Morro de Santo Antônio da mata do Residencial Parque das Cascatas, os maiores fragmentos da microbacia, constituindo-se em uma barreira física impactante para a dispersão da fauna. Pelo fato dos fragmentos estudados apresentarem áreas reduzidas e consequentemente a redução da qualidade do habitat, os animais frequentemente são forçados a procurar alimento, abrigo e outros recursos, ora escassos, em outros fragmentos e a Rodovia é causadora de constantes atropelamentos de animais.  

Muitos atropelamentos ao longo da rodovia de espécies tais como tatu, gambá, tamanduá bandeira, tamanduá mirim, ouriço, furão, entre outros já foram registrados e serão posteriormente levantados através de uma pesquisa junto a Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Silvestres (CEMPAS).

 

Caracterização da avifauna

Na primavera de 2011 a equipe verificou a presença de 14 espécies que ainda não haviam sido avistadas na Bacia do Córrego da Cascata. Até o presente momento, em termos qualitativos, (número de espécies registradas), já constatamos a presença de 119 espécies de aves na microbacia.

A maior diversidade ainda continua sendo no morro de Santo Antonio, por ser uma área maior que as outras, com menor influência antrópica e por ter uma diversidade de flora bastante rica, constituindo assim uma maior variedade de micro habitats (área descampada, sub bosque, dossel, áreas de riachos). As outras quatro áreas por serem muito menores e estarem localizadas próximo dos condomínios residenciais e da rodovia, a presença humana acaba por interferir muito na diversidade de espécies de aves.

De fato, a redução ou fragmentação das reservas florestais tem influência direta sobre a diversidade da avifauna. Sendo assim, torna se essencial a realização de levantamentos de aves com o intuito de se avaliar o grau de degradação, formular estratégias para minimizar esses efeitos negativos e contribuir para o desenvolvimento sustentável.   O estado de São Paulo é um dos que apresentam uma das menores coberturas vegetais nativas e ainda intactas e esta fragmentação provoca o desaparecimento de espécies mais especializadas, reduzindo assim a riqueza da avifauna.

Portanto, através destes levantamentos pode-se identificar a ocorrência de espécies endêmicas, raras, migratórias, ameaçadas de extinção e/ou por já apresentarem redução da avifauna original. Por outro lado, algumas espécies têm sua expansão favorecida pelas atividades antrópicas, mas é necessário que se mantenham áreas verdes com capacidade de abrigar espécies um pouco mais exigentes.

Esta influência sobre o levantamento de avifauna pode ser verificado durante as incursões da equipe nos fragmentos, o registro das vocalizações torna se muito prejudicada devido ao grande fluxo de veículos que ocorre entre as 7 horas da manhã e às 18 da tarde. 

Neste trimestre das 14 novas espécies, foram registradas 7 espécies migratórias que já começaram a aparecer na Bacia do Córrego da Cascata, (Juruviara, Tesourinha, Andorinhão do temporal, Bem te vi rajado, Andorinha de sobre branco, Maria irré, Peitica), 2 espécies que normalmente são muito procuradas por caçadores para gaiolas, pois possuem cantos apreciados por passarinheiros (Trinca ferro, Bico de veludo) e 1 espécie considerada grande frugívora (Jacupemba) que é um bio indicador que mostra que a área da mata do morro de Santo Antonio possui uma grande variedades de espécies frutíferas e 4 espécies que não apresentam qualquer peculiaridade que nos é conhecida até o presente momento.

A equipe selecionou 28 vocalizações das aves e editou para melhorar a qualidade do som. Porém, a mesma, do ponto de vista da equipe, ainda tem muito que melhorar, para isso os esforços amostrais vão continuar nos 5 fragmentos e procurar um melhor registro sonoros das espécies.

O crescimento das populações humanas, associado ao aumento do consumo e à desigualdade social são as principais causas para o aumento da pressão sobre os remanescentes de áreas naturais e conseqüentemente resultam em perda significativa da biodiversidade da fauna local.

A presença de mamíferos é um bom indicador do impacto antrópico sobre áreas naturais por pertencerem a um grupo extremamente diversificado, com vários hábitos alimentares e habitats diferentes e por desempenharem importante papel em uma série de processos dentro dos ecossistemas florestais. Os grandes herbívoros e frugívoros são responsáveis pela dispersão de sementes, enquanto os carnívoros desempenham o papel de manter o equilíbrio populacional através da predação.

No quarto trimestre de execução do projeto a equipe obteve os primeiros resultados das armadilhas fotográficas (Câmara Trap), instaladas em árvores estrategicamente escolhidas e próximas das parcelas de areia, para o registro fotográfico dos animais atraídos pelas iscas deixadas freqüentemente sobre as parcelas de areia.

Foram registradas cinco novas espécies, Artibeus sp morcego frugívoro, Gracilinanus microtarsus cuíca, Cuniculus paca,  Galictis cuja furão e um pequeno mamífero. Ao longo do projeto, 16 espécies de mamíferos foram registradas e apenas uma não foi identificada.

Total de mamíferos registrados na Microbacia Hidrográfica do Córrego da Cascata.

A diversidade de espécies de mamíferos registrada pela equipe na Bacia do Córrego da Cascata pode ser considerada bastante significativa principalmente se analisarmos os três principais fatores que comprometem a diversidade de espécies nos diferentes fragmentos; a proximidade da cidade, o tamanho da mata e a influência antrópica.

Todos os fragmentos estão inseridos no perímetro urbano da cidade e isto acaba por interferir direta ou indiretamente na qualidade e quantidade de animais presentes nestes fragmentos. Os depósitos de lixo, visitas constantes de pessoas no interior da mata, alto fluxo de veículos ao longo da rodovia acabam por alterar as características naturais do meio.

Em relação ao tamanho da mata, a presença humana vem promovendo uma diminuição e uma fragmentação das grandes florestas através da agricultura, pecuária e finalmente os diversos novos bairros. Estes fatores ao longo dos anos acabam por diminuir o tamanho das matas e conseqüentemente a diversidade de espécies ali existentes.  Outro fator que contribui para a diminuição do tamanho das matas bem como a diversidade animal é o fogo que provoca uma destruição muito grande e de difícil recuperação. Nos últimos anos temos constatado a presença de grandes focos de incêndio na região de Botucatu e na bacia do Córrego da Cascata. Este ano registramos um incêndio na mata do condomínio do Recanto Azul que destruiu parcialmente a mata em questão. A conseqüência deste incêndio sobre a diversidade animal foi muito evidente, pois nos levantamentos realizados antes e pós queimada é visível uma diminuição tanto quantitativa como qualitativa de espécies de aves e mamíferos. Outro fragmento de mata que também sofreu com as queimadas foi o morro de Santo Antônio, nos últimos cinco anos duas ocorrências de queimadas foram registradas neste fragmento, destruindo quase que totalmente a mata.

A influência humana é evidente na bacia do Córrego da Cascata, a presença de vários condomínios tem influência tanto direta como indireta sobre o córrego da Cascata, a Rodovia Domingos Sartori que liga a cidade de Botucatu a Rubião Júnior – UNESP com fluxo muito intenso e constante de veículos.

Todos estes fatores juntos ou isoladamente podem interferir com a diversidade de animais presentes na bacia do Córrego da Cascata e, isto pode ser verificado pelo grande número de registro de espécies generalistas, tais como o gambá e o tatu galinha que freqüentemente são observados nos registros fotográficos e nas parcelas de areia.

Estes animais acabam por se adaptar mais facilmente às alterações do meio e se reproduzem rapidamente atingindo um número expressivo nos registros. Além disso, as espécies mais especialistas, como os carnívoros que precisam de fragmentos de mata maiores e não se adaptam tão facilmente com a influência antrópica, acabam por se deslocarem destes fragmentos mais antropofisados e a cadeia alimentar acaba se deslocando para as espécies mais generalistas.

Por outro lado, a bacia do Córrego da Cascata nos traz grande surpresa e satisfação ao relatarmos a presença de espécies bastante significativas como, por exemplo, o tamanduá bandeira, tamanduá mirim e cachorro do mato.  Estas espécies foram registradas por fotos, registros visuais pelos moradores e parceiros do projeto, armadilhas fotográficas e infelizmente através de atropelamentos, como o caso do tamanduá mirim e do ouriço que foram encontrados atropelados nas proximidades do Parque das Cascatas.

Em relação aos atropelamentos dos animais, a equipe vem trabalhando no intuito de conseguir dados mais concretos sobre os animais que foram atropelados ao longo da Rodovia Domingos Sartori e Marechal Rondon e que foram enviados pela população, bombeiros, guarda municipal para o CEMPAS (Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Silvestres).

De posse destes dados, poderemos obter resultados mais concretos da interferência que o homem tem sobre os animais na Bacia do Córrego da Cascata e propor medidas mitigatórias à empresa Rodovias do Tietê, responsável pela manutenção da rodovia.

Os resultados obtidos até o presente momento demonstram que as espécies mais abundantes, são as generalistas tais como o tatu galinha e o gambá. A baixa freqüência de outros grupos, sobretudo os grandes carnívoros e herbívoros, pode indicar que estes animais evitam andar por pequenos fragmentos, procurando lugares onde não estejam tão visíveis ou ainda que não tenham sido atraídos pelas iscas colocadas nas armadilhas. Por outro lado, a ausência destes animais pode indicar que as densidades populacionais destas espécies sejam realmente baixas e isso pode ser explicado por várias razões, desde aspectos da história natural das espécies até o fato da pressão antrópica como a caça sofrida por eles no passado.

Em vários momentos os locais de amostragem foram mudados a fim de aumentar a freqüência de ocorrência de animais. Foram instaladas duas parcelas de areia no Parque das Cascatas e a armadilha fotográfica foi deslocada para um local no Morro do Santo Antônio onde o caseiro da propriedade relatou a presença de mamíferos no local. Também houve uma preocupação em diversificar a utilização de iscas, como carne crua, ovo e frutas para a atração de outras espécies de carnívoros e onívoros. Estas mudanças surtiram efeito positivo, pois mais fotos e pegadas dos animais foram registradas, como o caso do tamanduá bandeira.

 

Diante da adversidade muitas aves buscam abrigo, alimentação, locais para nidificação e poleiro em pequenos fragmentos de mata ou em parques urbanos. Esta constatação reflete a grande capacidade das aves de se adaptar às condições desfavoráveis do meio.

Em todas as áreas estudadas foi possível registrar 136 espécies de aves, distribuídas em 43 famílias.

No 4º trimestre, 12 novas espécies foram encontradas nos diferentes fragmentos sendo quatro espécies no Condomínio Terras Altas: quatro no Parque das Cascatas: três no Morro de Santo Antônio e uma espécie no Condomínio Recanto Azul. Apenas na Mata do Éden não foi registrada espécie nova neste trimestre e também foi a que teve a menor diversidade entre os cinco fragmentos, com 17 espécies registradas.

Para a nossa surpresa, a mata do Recanto Azul está mostrando a sua força em se regenerar, pois mesmo após ter sido quase que totalmente queimada pelo fogo teve um número expressivo de espécies registradas neste trimestre. Além disso, uma nova espécie foi registrada, uma ave bem pequena (figuinha de rabo castanho, Conirostrum speciosum), que normalmente permanece na copa das árvores, o que torna difícil a sua visualização.

As outras três áreas, Terras Altas, Parque das Cascatas e Morro de Santo Antônio tiveram uma amostragem muito parecida em termos qualitativos. Estes resultados refletem o grau de preservação das áreas e a menor influência antrópica.

No condomínio Terras Altas mesmo sendo um loteamento e um dos menores fragmentos, a diversidade de espécies são bem expressivas e isto pode ser visto pelo fato de ser um empreendimento novo com poucas casas, a maioria em construção e um amplo espaço para que as aves tenham lugares para pouso e alimentação.

No Parque das Cascatas, a quantidade de aves avistadas foi maior entre todos os fragmentos estudados.

Em termos qualitativos a mata do Morro de Santo Antônio é a que apresenta maior diversidade de aves  pois possui características peculiares em relação aos outros fragmentos. Este é a maior área de estudo do projeto, o acesso ao interior da mata pelas trilhas é mais difícil e o efeito de borda é bem menor devido à maior distância da área urbana. Estas características do fragmento permitem o registro de espécies mais especializadas que não ocorrem nas outras áreas onde o efeito de borda é mais evidente, como por exemplo, duas espécies que só são encontradas no interior de mata: soldadinho e trinca ferro.

Os outros fragmentos localizados dentro de condomínios e mais próximo da Rodovia Domingos Sartori têm maior interferência sonora o que acaba por comprometer a diversidade de aves, bem como o registro das vocalizações.

Por outro lado, alguns estudos mostram que a diversidade de aves, está ligada mais diretamente à estrutura da floresta do que à quantidade de espécies vegetais existentes neste ambiente natural. 

Isto vai de encontro com as características encontradas no Morro de Santo Antônio que possui uma estrutura bastante diversificada, formada por um dossel bastante fechado, um sub bosque rico em termos de galhos e um extrato inferior muito denso e com pouca luminosidade, favorecendo a presença de espécies mais fotossensíveis e específicas de interior de mata.

Em relação às espécies migratórias que começaram a aparecer na Bacia do Córrego da Cascata no trimestre passado, início do verão, estas continuam sendo observadas neste trimestre, tais como: Vireo olivaceus (Juruviáva), Tyrannus savana (tesourinha), Myiodynastes maculatus (bem ti vi rajado), Chaetura meridionalis (andorinhão temporal), Stelgidopteryx ruficollis (andorinha serradora), Empidonomus varius (peitica), Progne chalybea (andorinha doméstica grande).

O processo de migração é um fenômeno voluntário e intencional que ocorre periodicamente, com o objetivo de encontrar alimento e boas condições meteorológicas.

Os fatores fisiológicos responsáveis por este deslocamento ainda merecem estudos, mas em algumas aves observa-se o aumento nos níveis hormonais, ganho de peso e crescimento corpóreo. Essas alterações podem ser induzidas por modificações externas como variação do número de horas do dia, a escassez de alimentos ou das modificações climáticas.

Tendo em vista os resultados obtidos, a quantidade de espécies registradas durante o ano tem uma representatividade muito importante para a Avifauna do Estado de São Paulo, pois levantamentos realizados em fragmentos de mata maiores e mais preservados muitas vezes não têm a mesma diversidade de espécies encontradas na Bacia do Córrego da Cascata.

Diante disso, ao final deste projeto, podemos sugerir que o Córrego da Cascata tenha uma atenção maior por parte dos moradores e principalmente do Poder Público, e que medidas conservacionistas mais eficientes, tais como fiscalização mais efetiva contra o fogo e caçadores clandestinos; interrupção de qualquer atividade de derrubada de vegetação e, finalmente um programa de recuperação da vegetação com espécies nativas, incluindo a formação de corredores de vegetação entre os fragmentos sejam realmente realizadas para preservar este rico ambiente ribeirinho.

A graciosa e irrequieta Corruíra, Troglodites musculus, alimenta-se de pequenos frutos, sementes e insetos.

 

Outra atividade  foi consolidar a pesquisa sobre os animais silvestres atropelados e recolhidos na microbacia.

Foi solicitada ao Canil Municipal de Botucatu uma listagem de animais silvestres recolhidos vivos ou mortos com seus respectivos destinos.

De acordo com os dados fornecidos, no período de janeiro de 2009 até janeiro de 2012, foram resgatados 28 animais em áreas de moradia e estradas no perímetro da microbacia do Córrego da Cascata, dentre os quais, um lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e três tamanduás-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), ambas as espécies classificadas como vulneráveis no Livro Vermelho - Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Esses dados corroboram a premência pelas ações de proteção de áreas naturais, prevenção de atropelamentos, e orientações sobre as formas de coexistência com as espécies da fauna silvestre.

Animais

Quantidade

Vivo

Morcego - Chiroptera

2

2

Lagarto - Lepidosauria

1

-

Gambá – Didelphis sp

7

5

Tamanduá-bandeira  Myrmecophaga tridactyla

3

-

Lobo-guará - Chrysocyon brachyurus

1

-

Capivara – Hydrochaerus hydrochoeris

4

-

Cobra - Squamata

2

2

Ouriço – Sphiggurus vilosus

3

2

Lebre - Lepus sp

1

1

Cuíca - Didelphidae

1

1

Furão – Galictis vittata

1

1

Veado - Mazama sp

1

1

Cachorro do mato - Cerdocyon thous

1

1

Animais recolhidos pelo Canil Municipal na área da Microbacia de jan/2009 a jan/2012

 

Foto tirada pela Câmera Trap de uma Paca. Cuniculus paca

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