Onça parda fotografada pela câmara trap - Fazenda Edgardia - UNESP/Botucatu

 

 

A  Onça parda da Edgárdia

 

Em novembro de 2003, a ONG S.O.S Cuesta de Botucatu tomou conhecimento de que uma armadilha foi instalada na Fazenda Experimental Edgárdia, pertencente à UNESP/Campus de Botucatu pelo CENAP/IBAMA (Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais, órgão ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a pedido do Departamento de Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, UNESP/Botucatu, para capturar uma onça-parda que desde 1999 vinha atacando o rebanho de ovelhas utilizadas em experimentos do referido departamento. 

A Coordenadoria de Políticas Públicas da ONG imediatamente  se mobilizou e enviou um ofício ao CENAP pedindo que reconsiderasse a retirada da onça de seu habitat natural e publicou nos jornais um manifesto sobre a captura do animal.

 

Manifesto - Cativeiro X Habitat Natural

         A ONG S.O.S Cuesta de Botucatu sente-se no dever de informar sobre os acontecimentos em relação à onça-parda que habita a Fazenda Edgárdia.

         A Edgárdia, uma das três fazendas experimentais da UNESP de Botucatu, foi incorporada à Universidade objetivando a pesquisa e a extensão nas áreas agronômicas e zootécnicas.

         Por apresentar relevantes características naturais e por pertencer a APA - Perímetro Botucatu, a Edgárdia também foi destinada à preservação e estudos relacionados ao manejo florestal.

         Assim sendo, a fazenda foi dividida entre a FMVZ, a FCA e o IB, cada uma com autonomia para decidir a melhor forma de manejo da área que lhe cabe.

         Essa autonomia acaba sendo questionada quando o foco de discussão passa a ser o uso indevido e/ou incorreto dos recursos naturais e, no presente caso, a onça-parda.

         Segundo informações, uma dessas onças, nos meses de estiagem, andou se alimentando de ovelhas de experimentos.

         O IBAMA e o CENAP, entidades tidas como referência no manejo de grandes felinos foram chamados e baseados em relatos, decidiram retirar o animal da área, mantendo-o em cativeiro, até que se tenha um local adequado para sua soltura.

         A ONG S.O.S Cuesta de Botucatu, preocupada com os impactos ambientais negativos provenientes desta atitude, achou por bem entrar em contato com o CENAP, pedindo esclarecimentos e revisão da decisão.

         Entendemos que a onça-parda, por ser um animal de topo de cadeia alimentar, além de ameaçada de extinção, é importantíssima para o equilíbrio deste ambiente já bastante alterado.

         Alguns pontos básicos ainda não foram esclarecidos: Estudos técnicos foram realizados? Todas as medidas preventivas para afastar o indivíduo do local dos ataques foram tomadas? Se capturado, será  este o indivíduo atípico?

         Atualmente,o CENAP aguarda relatório da S.O.S Cuesta e do reclamante, para que uma decisão final seja tomada.

         A S.O.S Cuesta acredita que seja possível a convivência pacífica e harmoniosa entre o homem e a natureza, e é por esse ideal de sustentabilidade ambiental que iremos sempre lutar.

 

         Em resposta ao ofício encaminhado pela ONG S.O.S Cuesta de Botucatu, no dia 13 de novembro de 2003, o CENAP se pronunciou também através de ofício alegando que, do ponto de vista técnico, o animal em questão era um indivíduo com distúrbios comportamentais atípicos, que além de gerar prejuízos econômicos, ainda oferecia risco à população humana.

 

CENAP declara onça-parda um perigo para humanos

         Em resposta ao ofício encaminhado pela ONG S.O.S Cuesta de Botucatu, no dia 13 de novembro de 2003 o CENAP se pronuncia:

         O CENAP tem como missão a conservação das espécies in sito, e é competência do Centro a resolução de conflitos que envolvem predadores e população humana, mesmo quando os procedimentos envolvem remoções permanentes de seu habitat natural para o confinamento em cativeiro.

         Como é de conhecimento de V.S., em 14 de outubro deste exercício, foi instalada uma armadilha para a captura de onça-parda (Puma concolor) que vem atacando os animais da fazenda Edgárdia, propriedade da Universidade Estadual Paulista.

O animal em questão foi considerado, após severa análise dos dados apresentados ao CENAP pelo Dep. de Produção da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia e algumas visitas de um técnico deste Centro ao local de ataques, como animal-problema, ou seja, indivíduo com distúrbios comportamentais que além de gerar prejuízos econômicos, e no caso científicos, constantes, ainda oferece risco à população humana.     

Ainda, antes destas conclusões, e seguindo os procedimentos de rotina deste Centro nestes casos, optou-se por implantação de medidas preventivas e acompanhamento dos trabalhos de prevenção como alternativa a uma possível retirada do animal.

         Desta forma, as medidas sugeridas no Ofício 096/03 de 19 de agosto, que envolvem desde medidas de manejo básicas (como utilização de cincerros) até as mais complexas, como a ativação e manutenção da cerca elétrica, foram parcialmente atendidas em decorrência do teor dos ataques – sendo assim descartadas as medidas básicas e manejo. As medidas utilizadas pelos funcionários, relatadas ao Centro foram: utilização de rojões em diversas horas do dia, aumento da movimentação dos funcionários no piquete dos ataques, manutenção da pastagem , religamento e manutenção da cerca elétrica.

         Devido à intensificação das atividades predatórias pelo indivíduo principalmente no período final do inverno, tendo este contornado todas as medidas utilizadas e adquirindo comportamento destoante de todos os casos de conhecimento deste CENAP – como por exemplo passar por cercas acima de 2metros de altura, de 16 fios de arame liso e farpado e eletrificado e predar animais a poucos metros de funcionários (segundo relatos de um deles) – optamos pela captura do animal. A decisão dos técnicos deste Centro foi tomada temendo não somente novos ataques à criação, mas principalmente acidentes envolvendo funcionários e alunos presentes na área.

         Sendo assim, a única medida viável à neutralização das ações predatória do indivíduo silvestre à criação doméstica seria o isolamento total dos piquetes através de cercas do tipo alambrado. No entanto, esta medida foi descartada pela Faculdade, devido ao alto custo e não previsão nos planos orçamentários, relatando que poderia negociar sua instalação em 2004. No entanto, devido aos distúrbios comportamentais já apresentados pelo referido animal, as possibilidades de um acidente envolvendo funcionários e alunos persistiriam. Desta maneira assumimos que se esgotam os recursos de se manter o animal no local e impossibilita-se a permanência deste indivíduo. Paralelamente aos procedimentos para captura do animal, a Universidade deve assumir a responsabilidade de providenciar um patrulhamento efetivo na área da Fazenda Edgárdia e adjacências para coibição da caça predatória, fator predisponente à predação.

         Colocamo-nos à disposição de V.S. para outros esclarecimentos que se fizerem necessários.

Rose Lílian Gasparini Morato

Substituta/Chefe do Centro Especializado CENAP/IBAMA

 

      Mesmo com o parecer técnico do Centro, a S.O.S Cuesta de Botucatu, permaneceu contrária a retirada desse indivíduo de seu habitat natural, devido às informações desencontradas sobre o comportamento do animal em questão.

    Um animal que busca alternativas para sua sobrevivência não pode ser considerado atípico e sim criativo.  Essa manifestação contrária de retirada da onça-parda resultou em três reuniões entre a ONG, a diretoria da FMVZ, representantes do CENAP e representante do IBAMA da regional de Bauru.

     Para sustentar nossa posição em favor da permanência da onça-parda em seu território natural, a ONG produziu um relatório, rebatendo todas as argumentações técnicas do Centro, baseada em trabalhos científicos, estudos, relatórios e entrevistas produzidos muitas vezes pelo próprio CENAP.

    Mas foi a natureza quem resolveu esse conflito entre o homem e os habitantes naturais das matas e florestas. Dona onça foi vista pelas matas da Fazenda Edgárdia com dois lindos e saudáveis filhotes, confirmando a existência de um número desconhecido de onças-pardas na região, confirmando que a Edgárdia apresenta grande integridade ecológica e é considerada de grande relevância para a conservação da biodiversidade do Estado, confirmando que é possível a convivência pacífica entre o homem e a natureza.

Deste conflito, surgiu a iniciativa da Coordenadoria de Áreas Naturais Protegidas, de desenvolver  uma proposta de monitoramento da onça-parda da Fazenda Edgárdia

 

Proposta de Monitoramento da Onça na Fazenda Edgárdia 

A S.O.S Cuesta de Botucatu pesquisou a literatura científica e produziu um relatório sobre a onça-parda, (Puma concolor), uma das 8 espécies dos felídeos silvestres do Brasil.

Esse relatório é uma proposta de monitoramento da onça-parda que habita a Fazenda Edgárdia.  

 

RELATÓRIO ONÇA-PARDA 

(Puma concolor) 

Esse trabalho de pesquisa tem como objetivo revelar um panorama da atual condição de conservação da fauna silvestre e demonstrar que é possível a convivência pacífica entre os animais e os seres humanos através de trabalhos realizados na Juréia e em Florianópolis, na Fazenda Monte Alegre.

1. Convivência pacífica é possível

 1.1. Puma concolor na Juréia       

 "Foram encontrados desde o começo da pesquisa, cerca de 40 rastros de onças pardas por toda Juréia. Pesquisadores acompanharam 9 indivíduos identificados pela pegada por métodos especiais, que nos permitiu analisar tamanho de territórios, sobreposição, acasalamento e sexo quando este estava acompanhado por filhotes. 

Através deste estudo conseguimos estimar que 20 onças pardas vivem na Estação atualmente, nos mais diversos ecossistemas, desde a praia, manguezais, mata de encosta e formações de topo. Também foi avistada próximo de casas na Serra do Itatins, perto da Prainha, (local movimentado nos feriados e fins de semana) região que faz limites com a Juréia. 

Apesar de ser oportunista e estar mais próxima das regiões habitadas por humanos, no decorrer do trabalho, não houve nenhum ataque a criações.

Por várias vezes onças pardas caminharam a menos de 50 metros da residência de caiçaras onde estavam seus galinheiros e nada aconteceu.

Uma prova de que quando o ambiente possui quantidade de comida suficiente e está equilibrado não existe desarmonia entre humanos e felinos. Há abundância de pacas, cutias, tatus e veados.

São felinos belíssimos, moradores de uns dos únicos lugares que há praias preservadas atualmente, em seu estado selvagem, que ainda restam na costa brasileira e que permitem a sua existência. 

Não é difícil encontrarmos suas pegadas pela praia do Rio Verde passeando tranqüilamente entre o mar e a restinga ou mesmo na Praia do Caramborê, palco dos ensinamentos primordiais entre a mãe e um filhote. Raríssimo espetáculo dos guardiões das últimas praias selvagens brasileiras.

1.2. Projeto Puma – Klabin

Na Fazenda Monte Alegre, com sede em Florianópolis – SC, o Puma concolor encontra condições propícias à sua manutenção e conservação. 

Considerando a sua relativa abundância na região, o fato de ser uma espécie ameaçada de extinção e com potencial como bio-indicadora, a Klabin e o Programa RHAE - CNPq financiaram o projeto “Estudo Ecológico do Puma (Puma concolor) na Fazenda Monte Alegre".

Este estudo teve início em março de 1998 e foi concluído em março de 2000, sendo realizado pela ONG “Projeto Puma”, entidade que pesquisa e realiza levantamentos de grandes felinos no Brasil.

Para execução do projeto, foram utilizados diversos métodos de levantamentos, como monitoramento por rádio-colar, máquinas fotográficas remotas, identificação por pegadas, análise de fezes e fichas de visualização de animais silvestres.

Após os dois anos de pesquisas, a amostragem estimou a presença de mais de 100 indivíduos na área da Fazenda Monte Alegre, o que surpreendeu os pesquisadores. Este número significativo de animais, mostra a grande biodiversidade da Fazenda Monte Alegre, tão necessária para a sobrevivência destes felinos. 

Até agora, não foram registrados quaisquer incidentes destes animais com seres humanos.  

1.3. Especialistas querem evitar a morte de onças por proprietários rurais no Nordeste 31/10/2002

De acordo com Rogério Cunha de Paula, do CENAP/IBAMA, há mais mitos do que verdades cientificamente conhecidas por parte da população em relação às onças.  

         "Primeiro, é preciso ficar claro que as onças só atacam os rebanhos domésticos quando os alimentos se tornam escassos nas matas. As onças não atacam porque são ferozes ou más. Elas só querem sobreviver”, explica o biólogo. “O maior inimigo do homem é o mito da onça malvada”, diz ele. 

Ataques a humanos são ainda mais raros. Somente um caso foi registrado no Brasil, no fim da década de 90, em Carajás, no Pará.

1.4. Desmatamento provoca aparições de onças-pardas em cidades (28/08/2003)

O aumento da presença desses animais próximos a residências tem gerado falso mito de superpopulação do felino, que continua na lista de extinção do IBAMA.

São Paulo - O aumento de aparições de onças-pardas (também conhecidas como suçuaranas) próximas a áreas urbanas, nos últimos três anos, tem criado o falso mito de uma superpopulação desse felino. Segundo especialistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), no entanto, a espécie continua na lista das espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção. 

“O que tem crescido é a ocupação humana, que se aproxima cada vez mais das poucas áreas naturais, onde as onças continuam se reproduzindo no ritmo normal”, diz o biólogo Rogério Cunha de Paula, do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores (CENAP/IBAMA).

Segundo o biólogo, a implantação de grandes empreendimentos, como usinas hidrelétricas, plantações de eucalipto e as altas taxas de desmatamentos, acabam provocando a dispersão desses animais em busca de florestas naturais grandes e de qualidade, ou seja, com abundância de presas. 

Cada indivíduo da espécie precisa de cerca de 30 a 50 quilômetros quadrados, o equivalente a quase cinco mil campos de futebol.

        “A busca por alimento faz a suçuarana cair nas cidades. Apenas no último semestre tivemos capturas próximas ou em quintais de residências na Serra da Cantareira, em Ribeirão Preto e Peruíbe, em São Paulo, em Uberlândia (Minas Gerais) e Brasília. 

Apesar de apavorar as pessoas, por conta do seu tamanho, a onça encontrada na cidade está ainda mais assustada. Não está procurando comida e sim um local para se esconder”, explica.

Essas aparições, segundo Rogério, tendem a ficar cada vez mais freqüentes e a recomendação para quem encontrar uma delas é entrar em contato com o CENAP (11-4411-0144), que fica em Atibaia (São Paulo). 

“Nosso trabalho é promover a convivência pacífica entre o homem e os animais. São poucos os casos onde fazemos a captura e relocação do animal. Na maior parte das vezes, ele pode permanecer na região.”

Como tem medo do homem, a tendência é a onça-parda fugir sempre que reconhece um. Assim, os técnicos do CENAP afirmam que a melhor maneira de prevenção, para quem vive em áreas de risco (próximo a florestas ou fazendas de gado) é deixar sempre uma luz acesa e ter um cachorro. Se estiver fora de casa, a recomendação é levar uma lanterna, um radinho, qualquer coisa que mostre para a onça que ela está diante de um ser humano.

A onça-parda ataca apenas quando se sente em situação de risco, como quando está acuada em um canto, sem poder escapar, ou tiver um filhote.

Além disso, deve-se evitar montar armadilhas ou manejar sozinho o animal. “Para esses casos, siga o ditado: não cutuque a onça com vara curta”, diz Rogério. As recomendações valem para todos os tipos de onças, mesmo as menores, como a jaguatirica.

Embora existam muitos casos de animais silvestres que atacam pessoas em parques e cidades nos Estados Unidos, na África e na Índia, no Brasil existe apenas um registro de uma criança morta por onça, em Carajás (no Pará), no início dos anos 90. 

Mas, se o perigo para os seres humanos é mínimo, para as onças, o final nem sempre é favorável. Elas costumam ser recebidas a balas nas fazendas e as capturas feitas por pessoal inexperiente pode comprometer a sobrevivência de animais imprescindíveis para o equilíbrio ecológico.

A suçuarana não está entre os animais brasileiros mais vulneráveis à extinção, apesar de duas subespécies que ocorrem nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste apresentarem populações em declínio, conforme a última lista vermelha do IBAMA. 

No entanto, faltam dados populacionais que atestem que a espécie, de modo geral, tenha garantia de sobrevivência futura. (Maura Campanili)

 

2. Felinos em cativeiro no Brasil

Também relatamos estudos realizados com felinos em cativeiro que revelam baixa fertilidade e tédio.

          A Associação Mata Ciliar (AMC), através do “Plano de Manejo para Pequenos Felinos Brasileiros”, se propôs a efetuar estudos visando o desenvolvimento de pesquisas integradas e aplicadas, destinadas a ampliar os conhecimentos e contribuir para a conservação de felídeos neotropicais.

         Algumas espécies e subespécies de felinos brasileiros estão ameaçadas de extinção em virtude de acentuada destruição de seus habitats, caça predatória e comércio ilegal. Este quadro se torna ainda mais crítico devido à dificuldade encontrada acerca do sucesso reprodutivo dessas espécies em cativeiro, principalmente, dos pequenos felinos.

         Estes animais apresentam uma baixa taxa de natalidade, sendo que a maior parte dos filhotes não sobrevive ao primeiro mês de vida. (Censos SZB / Plano de Manejo para Pequenos Felinos).

         O bem-estar pode ser proporcionado através de técnicas de Enriquecimento Ambiental, que minimizam consideravelmente o tédio e a depressão causados pelo cativeiro e que levam o animal a desenvolver comportamentos estereotipados comprometedores de sua saúde.

         O enriquecimento ambiental – embora resulte de preocupação antiga - é uma área recente de estudo e de aplicação dos princípios do comportamento animal.

      De acordo com Stepherdson (Stepherdson, Mellen e Hutchins, 1998), busca melhorar a qualidade do cuidado a animais cativos pela identificação e pelo uso dos estímulos ambientais necessários para o bem-estar psicológico e fisiológico ótimo desses animais.

     Na prática, abrange uma variedade de técnicas originais, criativas e engenhosas para manter os animais cativos ocupados através do aumento da gama e diversidade de oportunidades comportamentais e do oferecimento de ambientes mais estimulantes.

 

3. Pela permanência da onça 

  Questionamos os argumentos usados pelo CENAP/IBAMA sobre a retirada do animal em questão da Fazenda Edgárdia, baseados em declarações em revistas, textos científicos, troca de ofícios entre as entidades envolvidas.

    Baseados no ofício e e-mails que chegaram ao nosso conhecimento por parte do CENAP, a ONG S.O.S Cuesta de Botucatu pede que seja reconsiderada a decisão de remoção do espécime Puma concolor que habita a Fazenda Edgárdia, área destinada à preservação e estudos relacionados ao Manejo Florestal.

04/11/2003 -  A S.O.S Cuesta toma conhecimento da armadilha colocada na Edgárdia para a captura da onça-parda, através de cópia de correspondência eletrônica entre um professor da UNESP e o representante da ONG Pró-Carnívoros e Centro Nacional de Pesquisas Para a Conservação de Predadores Naturais - CENAP

23/11/20003 – Cópia de correspondência eletrônica entre o membro da SOS Cuesta e o representante do CENAP

13/11/2003 – Ofício da SOS Cuesta para o CENAP

24/11/2003 – Resposta do CENAP para SOS Cuesta.

24/11/2002 – Ofício da S.O.S Cuesta para o Departamento de Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP – Btu .Ainda sem resposta.  

1.  AGOSTO 2003 – Ofício 096/03 do CENAP para a S.O.S Cuesta sugerindo, para a UNESP, medidas preventivas para afastar o indivíduo do local de predação.

         ...O animal em questão foi considerado, após severa análise dos dados apresentados ao CENAP pelo Departamento de Produção da FMVZ e ainda algumas visitas de um técnico deste CENAP ao local de ataques, como um animal problema, ou seja, indivíduo com distúrbios comportamentais que além de gerar prejuízos econômicos, e no caso científico constantes, ainda oferece riscos à população humana.

 ... O relatório que nos foi encaminhado já há alguns meses, resultou em algumas visitas no local para averiguação, implantação de medidas preventivas e monitoramento do problema de predação.(Ofício CENAP para S.O.S Cuesta)

...Trabalhamos todas as possibilidades para manter o animal no local, considerando o potencial da área para a sobrevivência sem a predação dos animais domésticos.(e-mail CENAP para professor UNESP)

     ...Quanto aos pedidos, segunda-feira estarei enviando um pedido oficial dos relatórios e infelizmente não posso esperar mais. Já pedimos inúmeras vezes e não fomos atendidos. Tenho que mandar um relatório para Brasília, mesmo porque essas informações descasadas e discussões políticas internas da UNESP, têm nos incomodado muito.(e-mail CENAP para S.O.S Cuesta)

A S.O.S Cuesta Pergunta: Desde que ano a onça vêm atacando os animais domésticos da Edgárdia e com que freqüência? Durante este período, que providências foram tomadas?

Quais foram os dados apresentados pelo Departamento de Produção Animal? Esses dados foram documentados?

Quantas visitas foram feitas ao local de predação e ao seu entorno? Que tipo de monitoramento foi feito e por quem?

 

2. AGOSTO 2003. Ofício resposta do CENAP para a S.O.S Cuesta

...Ainda, antes destas conclusões (animal atípico), e seguindo os procedimentos de rotina deste Centro nestes casos, optou-se por implantação de medidas preventivas e acompanhamento dos trabalhos de prevenção como alternativa a uma possível retirada do animal. Desta maneira, as medidas sugeridas no ofício 096/03, que envolvem medidas básicas como cincerros, até medidas mais complexas, como a ativação e a manutenção da cerca elétrica, foram parcialmente atendidas. As medidas utilizadas pelos funcionários, relatadas ao Centro foram: utilização de rojões durante diferentes horas do dia. Aumento da movimentação de funcionários no piquete dos ataques. Manutenção da pastagem. Religamento e manutenção da cerca elétrica.

    ...A única medida viável à neutralização das ações predatórias do indivíduo silvestre à criação doméstica seria o total isolamento dos piquetes com cercas do tipo alambrado. No entanto, esta medida foi descartada pela Faculdade devido ao alto custo e não previsão nos planos orçamentários, relatando que se poderia negociar a sua instalação em 2004. (CENAP)

...   ...A decisão de remoção ou relocação de um animal, principalmente grande felinos, é tida por este Centro com um pesar muito grande por todo o papel que estes desempenham no meio. Quando o fizemos é porque já esgotamos todas as possibilidades de manejo do problema e do espécime. (e-mail CENAP - UNESP)

A S.O.S Cuesta Pergunta: Desde quando a cerca elétrica foi adequada para o manejo de felinos? Fica ligada 24h? Tem sido feita a manutenção constante do capim? É comprovada a eficiência da cerca para afastar predadores? Todos os animais que conseguem desenvolver mecanismos para esquivar-se da cerca, evitando os choques são considerados animais problemas, ou seja, de comportamento atípico? Durante quantos meses foram utilizados rojões? Durante esse período de uso, há possibilidade de que o predador se habitue com o barulho? Foram utilizados cães pastores? Os carneiros são recolhidos em cabanhas durante a noite? Qual o destino das carcaças dos animais abatidos? Existem cercas de espinhos ao redor do piquete? Quando o criatório foi projetado lembrou-se de que não são recomendadas áreas próximas de mata, capoeira e corpos d’água porque facilitam a ação de predadores?

3. Ofício resposta do CENAP para a S.O.S Cuesta

   ...Devido à intensificação das atividades predatórias pelo indivíduo principalmente no período final do inverno, tendo este contornado todas as medidas utilizadas e adquirindo comportamento destoante de todos os casos de conhecimento deste Centro, como por exemplo passar por cercas acima de 2 metros de altura de 16 fios de arame liso e farpado e 3 eletrificados, e predar animais a poucos metros de funcionários (segundo relato de um deles) – optamos pela captura do animal. A decisão foi tomada temendo não somente novos ataques à criação, mas principalmente possíveis acidentes envolvendo funcionários e alunos presentes na área. (CENAP)

  ... Não só nesta Fazenda, como em todo o Brasil, verificamos que no inverno (principalmente no final dessa estação), coincide com o aumento de problemas de predação, devido à baixa de presas no ambiente.(e-mail CENAP – UNESP)

...   ... A informação que você nos apresenta agora, de que ela tem buscado alimento também nas matas é de grande valia, pela relação entre altos requerimentos energéticos e número de animais predados. (e-mail CENAP - UNESP)

Mas face ao prejuízo econômico e científico e após ponderar perdas e ganhos, viabilizamos a possibilidade de captura do indivíduo.(e-mail CENAP - S.O.S Cuesta)

...   ... Nossa preocupação, além da perda das matrizes importantes ao programa da Universidade, é principalmente o risco de um ataque aos trabalhadores e outras pessoas na área, haja vista o animal desenvolveu tal comportamento atípico. (CENAP - UNESP)

... ... Não foram as ocorrências deste ano que nos fizeram tomar esta decisão, mas a falta de timidez do animal que não se espanta com a presença humana.(CENAP - UNESP)

A S.O.S Cuesta Pergunta: O CENAP considerou a possibilidade de existir uma super valorização no que foi relatado pela FMVZ para enfatizar o comportamento do indivíduo, que chega a destoar do comportamento que este Centro já viu? Na ocasião em que o animal pulou a cerca de 2 metros de altura, não haveria a possibilidade de existir uma carreta estacionada por descuido ao lado da cerca? O relato do funcionário que esteve a poucos metros da onça e presenciou a predação foi um relato oficial? Quantos funcionários foram ouvidos oficialmente? Outras pessoas viram, oficialmente, o indivíduo? Quantas, onde e em que circunstâncias?

 

    A S.O.S Cuesta procurou se informar com o maior número possível de livros, publicações, entrevistas, sites oficiais, sobre a onça-parda e realmente o CENAP é referência nacional em ações com predadores. A seguir, palavras do CENAP:

     ...Paralelamente aos procedimentos para a captura do animal, a Universidade deve assumir a responsabilidade de providenciar patrulhamento efetivo na área da Fazenda Edgárdia e adjacências para a coibição da caça predatória, fator predisponente à predação.(CENAP)

     ...A onça-parda é um animal de hábitos solitários e territoriais, tendo maior atividade ao entardecer e anoitecer. Alimenta-se de animais silvestres de portes variados, exercendo papel vital na manutenção da integridade dos ecossistemas onde ocorre. A caça e a alteração de habitat, com conseqüente redução da disponibilidade de presas, são as principais ameaças à sua sobrevivência. Entre os felinos, é um dos melhores saltadores.(Site oficial Pró-Carnívoros)

     ...Classificada  como espécie ameaçada de extinção. (site oficial do IBAMA)

    ...Quando um carnívoro silvestre, como uma onça, apresenta uma freqüência de predação em uma determinada região, é comum se escutar a idéia de capturar o animal e translocá-lo, ou seja, levá-lo para outra região distante da problemática, ou mesmo para um zoológico. Por serem animais territorialistas, quando retirados de seu território, outros ocupam a área, e existe a possibilidade desses novos moradores reiniciarem o problema. (Abordagem do problema da predação: relação com produtores, indenização e translocação. Valéria Amorim Conforti e Fernando C.C. de Azevedo. Pró-Carnívoros)

    ...O felino é um animal territorial e como já disse, colocamos a armadilha em um ponto estratégico, onde só existe a possibilidade de capturarmos  a onça que vem atacando o rebanho e apresentando comportamento atípico. Os outros animais da espécie não apresentam riscos e podem continuar naquela área (Rogério de Paula para o Jornal Diário da Serra – Botucatu,4 de dezembro de 2003)

...Não há registros de casos de ataques de onças a humanos nas ocorrências registradas pelo CENAP. (IBAMA.gov.Br/notívias/material)

...No Brasil, existe apenas 1 registro de uma criança morta por onça, no início dos anos 90. (O ESTADO DE S.P – Ciências e Meio Ambiente – 28/08/2003).

...Apenas em um ano, o CENAP registrou 8 ocorrências de onças-pardas em áreas urbanas. Essas visitas inesperadas acontecem não por vontade do animal, mas devido à destruição de seu habitat e caça de suas presas. As onças são praticamente expulsas de seu ecossistema e se aproximam das cidades e fazendas em busca de alimentos que elas não mais encontram nas  áreas naturais. Sua intenção nunca é atacar o homem. O biólogo Rogério Cunha de Paula recomenda que as pessoas não mexam no animal e acionem a Polícia Ambiental, Corpo de Bombeiro ou o CENAP. O Centro é referência no tratamento de predadores, oferece treinamento a esses agentes e orienta fazendeiros nos casos de ataques de onças a rebanhos domésticos – situação bastante comum em todo o Brasil. No caso de uma onça-parda surpreender os moradores de uma região mais afastada, o biólogo orienta as pessoas se comportarem com naturalidade. “É bom falar alto, ligar um rádio, movimentar os braços e até se fingir de louco para que a onça entenda que você não é nem predador nem presa”, diz. A tendência é que ela vá embora. É só ter paciência e sangue frio.(Onças-pardas;o mito da superpopulação – Ciência Hoje 199, novembro 2003).

 

4. Gestão Ambiental

 Fizemos uma proposta de gestão ambiental da área, considerada zona de refúgio da vida silvestre, onde está localizada a Fazenda Edgárdia, com o objetivo de conscientizar sobre a importância da conservação daquela área.

PROPOSTA PARA A MANUTENÇÃO DA ÁREA DE REFÚGIO DE VIDA SILVESTRE (Fazenda Experimental Edgárdia/UNESP):

1.Educação ambiental com a população do entorno (abordar caça predatória, desmatamento e queimadas);

2.Proibição e fiscalização com relação à caça de animais silvestres, desmatamento e queimadas;

3.Realização de pesquisas na área (Fauna e Flora) e a partir daí a realização de um enriquecimento florístico;

4.Cercar a área (Alambrado e cercas vivas com espécies contendo espinhos);

5.Propostas de manejo (utilização de cães pastores e outras espécies de animal doméstico como bovinos c/ chifres ou bubalinos).

 

5. Todas as espécies têm direito à vida

  Por fim concluímos que pouco se sabe sobre o comportamento de felinos em seu habitat natural e que ações conservacionistas devem ser desenvolvidas buscando sempre a convivência harmônica entre humanos e animais silvestres.

        A S.O.S Cuesta acredita que pouco se sabe sobre grandes felinos, no Brasil que habitam ambientes alterados, influenciados pelo homem. A maioria dos estudos biológicos, tem sido conduzidos com animais em cativeiro, em ambientes remotos ou protegidos.

        É prioridade o estudo das populações desses felinos em ambientes alterados, porque diz respeito à coexistência pacífica entre o homem e animais silvestres.

       Lamentamos que o pedido de retirada do animal tenha partido de uma instituição pública de ensino do Estado com a missão de formar profissionais e pesquisadores inclusive na área de Ciências Ambientais. Em momento algum duvidamos da competência do CENAP/ IBAMA, apenas discordamos da solução encontrada,ou seja, a transferência do animal para o cativeiro.

         O bicho homem, este animal racional e social, de comportamento variado, luta por instinto, competição, sobrevivência, e em alguns casos, por pura vaidade, ganância, ambição e ignorância mesmo.

         O homem é o único animal que destrói a natureza e mata por motivo torpe.

         A maioria dos animais só ataca quando se sentem ameaçados ou a ameaça é para seus filhotes ou seu bando. Atacam também quando estão com fome ou feridos. Lutam pela sobrevivência, através da caça.

         A intolerância é típica do homem.                          

         É de fundamental importância a discussão sobre a permanência do exemplar de Puma concolor na área da Fazenda Edgárdia. A retirada deste animal de forma alguma vai evitar novos ataques, pois outro animal vai ocupar o seu território, portanto se nada for feito para melhorar as condições da área, por meio de um enriquecimento florístico e pesquisas quantitativas sobre a fauna, problemas muito maiores do que estes vão ocorrer.

         A S.O.S Cuesta de Botucatu, manifesta-se contrária a retirada desse indivíduo de seu habitat natural, devido às informações desencontradas sobre o comportamento do animal em questão. Um animal que busca alternativas para sua sobrevivência não pode ser considerado atípico e sim criativo.

         Levando-se em consideração que o animal em questão já foi visto com filhotes, presume-se que seja uma fêmea, e desta forma de vital importância a este ecossistema.

         Deve-se avaliar o impacto ambiental que a retirada deste animal de topo de cadeia provocará neste ecossistema.

         Levando-se em consideração que o ser humano com seus maus hábitos de desmatamentos, queimadas e caça predatória forçam este indivíduo a procurar alimento entre os animais domésticos, uma vez que os piquetes  ficam muito próximos da área de refúgio de vida selvagem, espera-se que medidas efetivas para coibir a caça predatória dos animais silvestres e educação ambiental sejam urgentemente implantadas.  

 

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